[RJ] bolsa de estudos: auxílio ou emprego?

aprendi, com raiva, confesso, como que a orientadora gostaria que eu me portasse, como sua secretária.

Bolsista Invisível

Cresce o desemprego e a exploração em nosso trabalho, exigindo mais qualificação. Assim, universidades ofertam formação para tentar empregos melhores, que um diploma universitário promete. Patrões exploram diplomados com maior ou igual intensidade, enquanto a concorrência só cresce entre nós. As universidades privadas são mercados que vendem cursos e as públicas se tornam espaços de capitação de recursos. Usam estudantes, professores e funcionários como objetos de exploração. Cada vez mais distante do tripé “ensino, pesquisa e extensão”, os estudantes são obrigados a se submeter às ofertas de bolsas, projetos, pesquisas ou estágios muitas vezes humilhantes, para garantir sua subsistência e formação. Vejamos os relatos de dois bolsistas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro:

“Pesquisa? estudos? tão vendendo pra gente uma ideia errada sobre as bolsas na universidade. dentre as tarefas dos bolsistas estão: ficar preparando cafezinho pra orientador, organizar o currículo lattes do orientador, organizar seus milhões de livros, estar sempre à disposição para auxiliar as aulas… resumindo, você é na verdade secretário de professor. A minha orientadora por exemplo: quando eu entrei ela exigiu da equipe preparar o currículo lattes dela inteirinho, com mais de 260 páginas para garantir sua vaga de professora titular em uma outra universidade. deu algumas semanas pra resolver. sempre à base do grito. no último dia de trabalho antes de ter finalizado esse currículo dela fomos (equipe de bolsistas) acusados de “mamar nas tetas do estado”. a mais nova da equipe recebeu insultos diretos e nas palavras da orientadora “é mal caráter”. temos um grupo no whatsapp para organizarmos nossas tarefas entre nós e cumprir os prazos, mas na maioria do tempo destinamos o espaço pra falar mal da orientadora, falar dos nossos problemas pessoais, todas as nossas angústias. espaços que estimulam nossa liberdade de sermos alguma outra coisa além de servos da orientadora é o que me mantém na bolsa, e claro, o dinheirinho que vem pra ser gasto todo em xerox e bandejão.”

“quando ofereceram-me uma bolsa de pesquisa, pensei logo no quão enriquecedora seria a experiência para mim. vejam bem, no segundo período de faculdade, com dezoito anos recém feitos e já em uma bolsa de pesquisa, uma oportunidade excelente, não? todavia, estava enganada.o que ocorreu foram práticas que em nada relacionavam-se à pesquisa proposta no termo que me foi encaminhado por e-mail, contendo meus dados, meu nome. aprendi, de maneira superficial, como mexer no sistema do currículo lattes. aprendi, com raiva, confesso, como que a orientadora gostaria que eu me portasse, como sua secretária. enviar provas por e-mails, passar a lista de presença para os alunos, coisas que em nada cabiam-me.o salário? 400 reais. ao menos os alunos gostavam de mim, para a orientadora, eu não passava de uma jovem sem caráter, quiçá fútil e mimada.”

O que fazer diante dessa situação? As instituições universitárias e os gestores irão dizer que existem as entidades estudantis para nos defender. Somos tratados como clientes ou usuários do serviço de ensino, mas a realidade mostra que somos trabalhadores em busca de formação e subsistência.

Estamos mais próximos dos faxineiros, vigilantes, cozinheiros e demais funcionários do que das profissões prometidas em sala de aula. Ou nas assembleias estudantis e nos diretórios acadêmicos, que deliberam reivindicações mas depois tudo retorna à mesma situação.

Será que criar relações de solidariedade entre estudantes e trabalhadores, a partir das situações de exploração e precariedade, não seria a solução? Este jornal esta disposto a colocar a voz dos estudantes e trabalhadores invisíveis. Entendemos que isso é fortalecer trocas de experiência e laços de solidariedade. Mesmo sendo invisíveis, não estamos sozinhos. Mande para nós o seu relato!





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